
“Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo” Freud
Sabe-se há bastante tempo que falar pode produzir bons efeitos para o sujeito. Historicamente a medicina sempre destinou grande valor à fala em sua clínica. Apesar de não ser essa uma descoberta da psicanálise, foi Freud quem deu lugar de destaque a ela na criação da psicanálise. No início de sua clínica, uma de suas pacientes intitulou o tratamento recebido como “talking cure“, uma cura pela fala. Uma prática que se fundaria no fato mesmo de que as palavras podem ter efeito até em campos que lhes parece escapar, como nos nossos atos, no nosso corpo, nos sintomas e nos sonhos.
Como método, a psicanálise se utiliza da associação livre. Pede-se que o paciente fale o que lhe vem à mente, deixando de lado julgamentos e pré-concepções. Quando alguém endereça sua fala a um analista não raro percebe que algo ultrapassa sua expressão intencional e tem assim a sensação de que algo corre por se dizer. O sujeito se sente atravessado, ultrapassado por algo que desorganiza a sua pretensa ordem, pode se dar conta de alguma coisa que está ali e se faz presente nele, mas que ele próprio ignora. O inconsciente para a psicanálise está estruturado como uma linguagem e se faz ouvir (em um trabalho de análise) na fala.
Cabe aqui ressaltarmos que é pela presença e escuta de um analista que tal desvio no discurso é recolhido como não arbitrário. A aposta da psicanálise é que o paciente possa se encontrar com o que fala e com o que se diz em sua fala. A linguagem não é um meio, ela nos modifica, instaura regras e constitui a forma de nos dirigirmos ao outro e ao mundo. O que o analista escuta é o que se enuncia na fala do paciente apesar dele mesmo. É o próprio paciente que pode dizer alguma coisa acerca de seu sofrimento singular, este não está alhures, tampouco seu sentido. Somos seres de linguagem, nos constituímos nela e é por ela que podemos nos desvencilhar de alguns nós.